Ataque a tiros contra igreja greco-ortodoxa em Karak, na Jordânia, deixa 7 mortos e 40 feridos; rei promete "punho de ferro"

ORIENTE MÉDIO
Um ataque a tiros contra uma igreja greco-ortodoxa na aldeia de Hmoud, na província de Karak, no sul da Jordânia, deixou sete mortos e 40 feridos em 23 de outubro (horário local). Os números foram divulgados pelo ministro da Saúde, Ibrahim Bdour, em entrevista coletiva em Karak naquela noite e são o balanço oficial mais recente apresentado pelas autoridades jordanianas. O governo jordaniano classificou o ataque como produto da ideologia extremista takfiri (que rotula outros como infiéis). O rei Abdullah II advertiu que quem tentar prejudicar o país será atingido com "punho de ferro" (iron fist), e o governo decretou três dias de luto nacional. Quantos eram os autores, quem eram e se foram capturados não havia sido anunciado até a madrugada do dia 24.
Ministro da Saúde apresenta 7 mortos e 40 feridos como balanço oficial mais recente
O ministro da Saúde, Bdour, deu entrevista coletiva na sede do governo provincial de Karak na noite do dia 23, ao lado de Mohammad Momani, porta-voz do governo e ministro da Comunicação Governamental. A entrevista ocorreu logo após uma reunião ministerial presidida pelo primeiro-ministro, Jafar Hassan, e a agência estatal Petra publicou a reportagem em árabe às 22h48, horário local, e em inglês às 23h06.
Segundo Bdour, dos 40 feridos, 14 foram levados ao Hospital Governamental de Karak e 26 ao Hospital Militar Príncipe Ali bin Al Hussein. Destes, três foram transferidos para o Hospital Italiano de Karak. Dos sete mortos, dois morreram no Hospital Governamental de Karak e cinco no hospital militar. Duas pessoas em estado crítico passavam por cirurgia no centro cirúrgico do hospital militar. Nove pessoas do hospital militar e três do Hospital Governamental de Karak foram transferidas para a Cidade Médica Rei Hussein, e as demais estavam em condição estável, disse o ministro da Saúde.
Balanço de vítimas mudou três vezes em meio dia
A primeira menção oficial não trazia números. Às 14h58, horário local, a seção de notícias urgentes da Petra publicou, citando a Diretoria de Segurança Pública (PSD), que pessoas armadas abriram fogo dentro de uma igreja em Karak, deixando vários mortos e feridos. Por volta das 15h, Momani escreveu nas redes sociais que os órgãos de segurança acompanhavam o caso no local e que "declarações oficiais seriam emitidas à medida que as informações fossem verificadas" (official statements would be issued as information is verified). Momani pediu aos cidadãos que deixassem os órgãos de segurança tomarem as providências necessárias e que buscassem informações em fontes oficiais.
Os primeiros números saíram às 17h13. A PSD afirmou, por meio de porta-voz, que, no incidente ocorrido em um funeral na província de Karak, "seis pessoas morreram e 28 ficaram feridas" (six people were killed and 28 others injured). O comunicado não informou a causa nem usou as palavras igreja ou terrorismo. Segundo a PSD, a investigação seguia de forma intensa e os resultados seriam divulgados assim que disponíveis. Antes, às 15h08, um alerta da PSD em árabe também havia descrito o caso como "tiros contra um funeral".
Os segundos números vieram em entrevista coletiva conjunta do ministro do Interior, Mazen Faraya, e do diretor da PSD, general de divisão Obeidallah Maaitah. A entrevista foi anunciada para as 17h30, e a Petra publicou a reportagem sobre ela às 20h08. Maaitah disse que sete pessoas morreram e 34 ficaram feridas em um ataque terrorista contra a igreja greco-ortodoxa da aldeia de Hmoud. Faraya chamou o ataque de "ato hediondo" (heinous act) e disse que ele não enfraquecerá a determinação do povo em rejeitar a violência e o extremismo. Uma reportagem da Petra das 18h41 sobre um comunicado do Ministério das Relações Exteriores e dos Expatriados da Síria também trazia esses números (sete mortos e 34 feridos).
O terceiro e último balanço é o do ministro da Saúde, de sete mortos e 40 feridos, divulgado às 22h48 (em árabe) e às 23h06 (em inglês). O número de mortos aumentou em um, de seis para sete, e o de feridos aumentou em 12, de 28 para 34 e depois para 40. Até a madrugada do dia 24, nenhum anúncio alterando esses números havia sido publicado pela Petra.
Comunicados oficiais se referem tanto a tiros em um funeral quanto a ataque terrorista a igreja
A formulação dos comunicados oficiais sobre o local do incidente varia um pouco. A PSD mencionou um funeral no primeiro anúncio de números e no alerta em árabe. A Associação de Imprensa da Jordânia afirmou em comunicado às 17h34 que moradores de Hmoud foram atacados enquanto realizavam o funeral de uma mulher, após terminarem as orações em uma igreja local. O presidente do Senado, Faisal Fayez, disse em comunicado às 17h16 que pessoas armadas não identificadas atacaram participantes de um funeral na igreja de Hmoud.
A entrevista coletiva do ministro do Interior e do diretor da PSD e o comunicado do gabinete do primeiro-ministro sobre o luto nacional classificaram o caso como um ataque terrorista contra a igreja greco-ortodoxa da aldeia de Hmoud. O vice-presidente palestino, Hussein al-Sheikh, e o presidente do Líbano, Joseph Aoun, referiram-se às vítimas como fiéis. Também há divergência sobre o local dos disparos. A nota urgente da Petra das 14h58 informou que houve tiros dentro da igreja, enquanto a reportagem em inglês das 16h18 sobre a proibição de divulgação determinada pela Promotoria descreveu o caso investigado como um incidente ocorrido "nas proximidades da Igreja de Hamoud" (in the vicinity of Hamoud Church). Os comunicados oficiais não informaram em que etapa da cerimônia fúnebre os disparos começaram.
Feridos foram divididos entre hospital militar e cidade médica
O Exército jordaniano participou da transferência dos feridos. Segundo reportagens da Petra das 0h44 (em árabe) e 1h18 (em inglês) do dia 24, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Majdi Harasis, seguindo instruções do rei, ordenou ao comando dos Serviços Médicos Reais que "transferisse os feridos no tiroteio da província de Karak para a Cidade Médica Al Hussein".
O comando dos Serviços Médicos Reais informou que o Hospital Militar Príncipe Ali bin Al Hussein recebeu 26 feridos. Destes, oito foram levados à Cidade Médica Al Hussein em helicópteros da Real Força Aérea Jordaniana e três a hospitais privados. Oito seguem internados e dois receberam tratamento e tiveram alta. O número de transferidos do hospital militar para a cidade médica difere em um entre o anúncio do ministro da Saúde (nove) e o do Exército (oito). O Exército jordaniano afirmou que vai "apoiar os cidadãos e mobilizar todos os recursos médicos disponíveis".
O vice-primeiro-ministro e ministro da Administração Local, Walid Masri, visitou o Hospital Governamental de Karak na tarde do dia 23 para ver os feridos. "O governo acompanha diretamente o estado dos feridos", disse Masri, acrescentando que o governo garantirá que recebam o mais alto nível de atendimento.
Governo atribui ataque ao extremismo takfiri e promete capturar os autores
Por volta das 17h10, o porta-voz Momani anunciou nas redes sociais que o primeiro-ministro Hassan realizaria uma reunião do conselho de segurança na sede do governo provincial de Karak para avaliar a resposta das autoridades competentes. Hassan presidiu a reunião na noite do dia 23. Hassan disse que o rei instruiu todas as instituições do Estado a rastrear e punir os autores. "Nossos órgãos não pouparão esforços, e vamos capturá-los" (Our agencies will spare no effort, and we will apprehend them), disse Hassan. Hassan afirmou que o ataque foi "resultado da ideologia terrorista takfiri e do extremismo cego" (the result of terrorist takfiri ideology and blind extremism). Falando de "um baluarte impenetrável contra essa ideologia takfiri" (an impenetrable bulwark against this takfiri ideology), Hassan disse que quem colabora com os autores "não tem lugar em nosso país e em nossa sociedade". Na reunião, ministros e chefes dos órgãos de segurança relataram o estado dos feridos e o andamento da busca pelos autores.
Antes, por volta das 19h13, Hassan escreveu no X: "O terrorismo não tem religião nem pátria" (Terrorism has no religion and no homeland). Hassan acrescentou que "não haverá lugar neste país para quem incita a divisão e o extremismo" e que "o longo braço da Justiça alcançará todos os envolvidos neste ato vil". Na mesma noite, Hassan visitou o local de condolências montado na Associação Beneficente de Hmoud. Acompanharam o primeiro-ministro o ministro do Interior, Faraya, o ministro de Estado para Assuntos do Primeiro-Ministro, Abdullatif Najdawi, o diretor do Departamento Geral de Inteligência (GID), Ahmad Husni, e o diretor da PSD, Maaitah.
Na entrevista coletiva, o porta-voz Momani disse que o governo condena o ataque "nos termos mais veementes" (أشد العبارات). Momani classificou o ataque como resultado de uma "ideologia takfiri extremista" (فكر تكفيري متطرف) e disse que os autores "não representam os jordanianos". Momani afirmou que o Estado "não será leniente" (لن تتهاون) em rastrear os responsáveis e levá-los à Justiça. Momani chamou os cristãos de "parte original e inseparável do tecido do povo jordaniano". Na entrevista coletiva, Maaitah disse que os responsáveis serão presos em breve e levados à Justiça.
Rei adverte com "punho de ferro" e governo decreta três dias de luto nacional
O rei Abdullah II escreveu no X no dia 23 que aqueles que pensaram que "balas traiçoeiras poderiam dividir os jordanianos fracassaram" (treacherous bullets could divide Jordanians have failed). "O sangue de cada jordaniano é precioso" (The blood of every Jordanian is precious), disse o rei, advertindo que quem tentar prejudicar o país será atingido com "punho de ferro" (iron fist). O rei ressaltou que os jordanianos são um só "do norte ao sul do Reino" (from the north to the south of the Kingdom), apresentou condolências às famílias das vítimas e desejou pronta recuperação aos feridos.
O príncipe herdeiro Hussein disse que balas terroristas não podem diminuir Karak, que tem uma história de honra e dignidade. "Os jordanianos enfrentarão unidos qualquer um que tente minar a segurança e a estabilidade da pátria", afirmou o príncipe herdeiro. A rainha Rania escreveu nas redes sociais: "As lágrimas da aldeia de Hmoud e de seus moradores são as lágrimas de todos os jordanianos".
Em comunicado às 21h42, o primeiro-ministro Hassan decretou luto nacional de três dias a partir de sexta-feira, dia 23. As bandeiras ficarão a meio mastro nos prédios de ministérios, departamentos governamentais e instituições públicas. O governo disse que o período de luto expressa a dor e a solidariedade de todos os jordanianos diante da tragédia.
Promotoria proíbe divulgação sobre a investigação e polícia rastreia publicações on-line
O procurador-geral de Amã, Hassan Abdallat, determinou na tarde do dia 23 a proibição de divulgação sobre a investigação do incidente nas proximidades da igreja de Hmoud, na província de Karak. A base legal são o Artigo 39 da Lei de Imprensa e Publicações e o Artigo 225 do Código Penal. A proibição se aplica a todos os meios de radiodifusão, impressos e digitais e às redes sociais. Não podem ser divulgados conteúdos sobre o incidente, o andamento da investigação ou qualquer coisa que possa afetar a administração da Justiça, e a circulação e republicação de fotos e vídeos relacionados ao incidente também foram proibidas. A circulação de informações sobre a própria existência da proibição também está incluída. Apenas a mídia estatal sob supervisão do Ministério da Comunicação Governamental está isenta. Quem violar a medida responderá "legal e judicialmente", segundo a Promotoria, que não especificou as penas.
Na entrevista coletiva, o porta-voz Momani também pediu aos cidadãos e à imprensa que não divulguem fotos e vídeos das vítimas e dos feridos nem espalhem informações não verificadas. A PSD informou, por meio de porta-voz, que a unidade de crimes cibernéticos monitora publicações e comentários nas redes sociais desde o incidente. O monitoramento tem como alvo conteúdos que violem a privacidade e a dignidade das vítimas e dos feridos, atrapalhem a investigação, ameacem a paz social ou incitem a divisão. O porta-voz afirmou que várias pessoas já foram identificadas e que providências estão sendo tomadas para prendê-las. A PSD advertiu que "não haverá leniência" com tais publicações e comentários. O número de pessoas identificadas não foi divulgado.