Departamento de Justiça dos EUA indicia presidente de empresa da Califórnia por contrabando de US$ 300 milhões em servidores com GPUs Nvidia para a China

O presidente de uma empresa de computadores da Califórnia foi preso sob a acusação de desviar para a China, via Malásia e Singapura, mais de US$ 300 milhões em servidores de alto desempenho equipados com unidades de processamento gráfico (GPUs) fabricadas nos EUA. Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ele apresentou aos fabricantes documentos com declarações falsas sobre o usuário final.
Em comunicado à imprensa divulgado em 1º de outubro de 2026, no horário do leste dos EUA (2 de outubro no horário da Coreia), o Departamento de Justiça informou que Greg Lui (38 anos, nome em estilo de Hong Kong: Yiu Kong Lui), residente em San Gabriel, foi preso após indiciamento de três acusações por um grande júri federal. Lui é o proprietário da 'Earthmade Computer Inc.', situada em City of Industry. A ata de acusação do grande júri é datada de 29 de setembro.
Bill Essayli, primeiro procurador federal adjunto da Procuradoria Federal do Distrito Central da Califórnia, declarou em sua conta no X que Lui "foi preso sob acusação de contrabandear para a China mais de US$ 300 milhões em servidores de computadores controlados para exportação contendo GPUs de fabricação norte-americana".
https://x.com/USAttyEssayli/status/2105757882994352171
O que muda
A importância deste caso reside no fato de que o Departamento de Justiça tornou público um processo criminal, com valores e rotas especificados, envolvendo a acusação de que o controle de exportações de semicondutores avançados do Departamento de Comércio dos EUA foi burlado mediante "desvio por terceiros países". O cerne desta acusação não é a exportação em si, mas a reexportação sem autorização. De acordo com o Departamento de Justiça, o envio para a Malásia e Singapura não exigia licença do Departamento de Comércio, mas o envio dos mesmos equipamentos para a China requeria tal permissão.
A título informativo, o comunicado do Departamento de Justiça grafou inteligência artificial (AI) como 'SI (Super Intelligence)'. O procurador Essayli registrou em sua publicação no X a expressão "Super Intelligence(formerly-AI)". A grafia original do Departamento de Justiça é 'SI(Super Intelligence)'.
A rota traçada pela acusação
Os nomes detalhados dos modelos de GPU e as etapas de compra e transporte baseiam-se na leitura de uma cópia da denúncia divulgada pela imprensa. Como não foi possível consultar diretamente o documento original da acusação no sistema eletrônico de consulta do tribunal (PACER), pontos essenciais como número do processo, réus, crimes imputados e o montante de US$ 300 milhões foram cruzados com o comunicado oficial do Departamento de Justiça, enquanto detalhes que constam apenas na cópia são registrados estritamente como alegações da acusação. Isso foi feito para não misturar trechos não verificados no documento original com os fatos confirmados pelo comunicado à imprensa.
Segundo o comunicado do Departamento de Justiça e a acusação formal, Lui e seus comparsas adquiriram itens controlados para exportação por meio da Earthmade entre 2023 e 2024.
- Compra: A acusação descreve que Lui encomendou de três fabricantes norte-americanos ('U.S. Manufacturers 1, 2, 3' na petição) servidores equipados com GPUs Nvidia A100 e H100, bem como GeForce RTX 4090 e 5090. A alegação dos promotores é que ele declarou falsamente que o usuário final residia em países que não exigiam licença de exportação.
- Transporte: Lui utilizou agentes de frete para despachar os servidores para a Malásia e Singapura e, após o desembarque local, reenviou-os para a China junto com seus comparsas, informou o Departamento de Justiça.
- Fundos: De janeiro a outubro de 2024, a Earthmade recebeu mais de US$ 176 milhões de duas empresas transportadoras sediadas na Malásia, afirmou o Departamento de Justiça.
Há também episódios específicos revelados pelo Departamento de Justiça. Em janeiro de 2024, Lui enviou um e-mail a um comparsa informando que uma empresa de transbordo da Malásia desejava comprar 70 servidores equipados com GPUs de exportação restrita. Em um documento de conformidade de exportação anexado a esse e-mail, constava que essa firma malaia estava ciente das leis norte-americanas que restringem a venda, o transbordo e a exportação dos referidos servidores. No mesmo mês, Lui encomendou 27 unidades a uma fabricante norte-americana por cerca de US$ 7.614.000, e os servidores foram transportados de Los Angeles para Kuala Lumpur. Em março de 2024, um dos comparsas enviou um e-mail a uma autoridade governamental da Malásia informando que "27 unidades foram transbordadas para compradores chineses", declarou o Departamento de Justiça.
O escritório regional do FBI em Los Angeles também divulgou a prisão e a acusação em sua conta no X.
https://x.com/FBILosAngeles/status/2105776686016925849
Declarações das autoridades
John Eisenberg, procurador-geral adjunto de Segurança Nacional do Departamento de Justiça, declarou: "A SI (AI) é a tecnologia definidora da nossa era", enfatizando que "a Divisão de Segurança Nacional protegerá a liderança dos Estados Unidos nos chips que alimentam essa tecnologia contra a apropriação indevida por adversários econômicos e militares". A Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça também publicou essas declarações em sua conta no X.
https://x.com/DOJNatSec/status/2105776178816594363
Roman Rozhavsky, diretor assistente da Divisão de Contrainteligência e Espionagem do FBI, afirmou: "A investigação do FBI revelou que Lui supostamente vendeu centenas de milhões de dólares em tecnologia de SI norte-americana ao governo chinês". A menção ao comprador como 'governo chinês' partiu do diretor assistente do FBI, ao passo que o texto principal do comunicado do Departamento de Justiça registrou os usuários finais como aqueles "na China (in China)".
John E. Helsing, agente especial do Escritório de Campo Ocidental do Serviço de Investigações Criminais de Defesa (DCIS) do Gabinete do Inspetor-Geral do Departamento de Defesa, disse: "Essas tecnologias proporcionam uma vantagem decisiva às Forças Armadas dos EUA". David A. Peters, secretário adjunto de Execução de Exportações do Bureau de Indústria e Segurança (BIS) do Departamento de Comércio, afirmou: "Empregaremos todos os meios legais ao nosso alcance para defender a segurança nacional e responsabilizar os transgressores".
A conta oficial do quartel-general do FBI também compartilhou o comunicado emitido pelo escritório de Los Angeles.
https://x.com/FBI/status/2105810106289893651
Natureza jurídica e penalidades
Este caso consiste em uma acusação penal por violação dos Regulamentos de Administração de Exportações (EAR) do Departamento de Comércio. Trata-se de uma acusação criminal (imputação) do Departamento de Justiça, constituindo medida distinta da aplicação de sanções pelo Departamento do Tesouro ou da inclusão na Entity List (lista de entidades controladas) do Departamento de Comércio. O Departamento de Justiça declarou que, caso seja condenado por todas as acusações, Lui poderá pegar até 20 anos de prisão por conspiração, até 20 anos por conspiração para lavagem de dinheiro e até 10 anos por contrabando de exportação. Todas representam penas máximas cominadas em lei, cabendo a dosimetria efetiva ao juiz. O Departamento de Justiça informou ainda que procuradores do Distrito Central da Califórnia estão conduzindo o confisco civil e criminal dos bens apreendidos.
Os nomes reais das 'Fabricantes Norte-Americanas 1, 2 e 3' e das empresas de frete mencionadas na denúncia não foram tornados públicos, e o Departamento de Justiça não as listou como rés. A Nvidia é citada nominalmente como fabricante dos chips, mas não figura como parte acusada.
Histórico das medidas de controle de exportação: regras de 2022 e complementações de 2023
O período imputado no caso de Lui, entre 2023 e 2024, coincide com a fase imediatamente posterior à implementação de novos controles sobre exportações de computação avançada voltados contra a China pelo Bureau de Indústria e Segurança (BIS) do Departamento de Comércio dos EUA. Em 7 de outubro de 2022, o BIS anunciou controles sobre chips semicondutores de computação avançada, usos finais de supercomputadores e itens para fabricação de semicondutores. O BIS fundamentou essas restrições na necessidade de conter a capacidade chinesa de comprar e fabricar chips avançados, apontando o temor de que tais insumos fossem empregados na produção de sistemas militares avançados — incluindo armas de destruição em massa —, no aumento da rapidez e precisão de decisões militares, planejamento e logística, e em sistemas militares autônomos e abusos de direitos humanos. O BIS indicou que a regulamentação entrou em vigor de forma escalonada: as restrições a itens de manufatura de semicondutores valeram desde a data do comunicado, em 7 de outubro de 2022; as restrições ao suporte por cidadãos dos EUA a certas instalações de produção de semicondutores na China entraram em vigor em 12 de outubro; e os controles sobre computação avançada e supercomputadores, em 21 de outubro. Como respaldo legal, foram invocados o Export Control Reform Act (ECRA) de 2018 e seus regulamentos de aplicação, os Export Administration Regulations (EAR).
No material do briefing público realizado pelo BIS para detalhar a regra de 2022, consta um bloco de perguntas e respostas registrando que Nvidia e AMD foram notificadas a respeito de circuitos integrados avançados e emitiram declarações públicas admitindo que A100, H100, MI250 e MI250X seriam impactados. O BIS mantém desde então uma página informativa consolidando a regra de 7 de outubro de 2022 e a norma complementar de 17 de outubro de 2023. Não obstante, o comunicado do Departamento de Justiça não detalha qual Número de Classificação de Controle de Exportação (ECCN) do BIS foi especificamente adotado na denúncia contra Lui. As regras do BIS representam o arcabouço normativo de fundo da acusação, sem que tenha havido a definição pública de um ECCN específico para cada modelo individual de servidor adquirido por Lui. A distinção apresentada pelo Departamento de Justiça é que o envio para a China necessitava de licença do Departamento de Comércio, ao passo que as remessas para a Malásia e Singapura dispensavam essa autorização prévia.
O desenho dos controles também não visava unicamente impedir "remessas diretas à China", como atesta a fundamentação do BIS. A norma de 2022 adicionou à Lista de Controle de Comércio (CCL) do Departamento de Comércio os próprios circuitos de computação avançada e os produtos computacionais que os integram, instituiu a obrigatoriedade de licença para supercomputadores ou destinações finais voltadas ao desenvolvimento e à fabricação de semicondutores na China, e expandiu a abrangência dos EAR até mesmo sobre determinados itens de computação avançada produzidos fora dos EUA. O esquema questionado pelos promotores no caso Lui consistiu em falsificar, sob esse regime, o usuário final e o destino final para simular transações isentas de licença, procedendo em seguida ao redirecionamento dos itens de terceiros países para a China. A simples chegada ao país de trânsito não configuraria por si só ilicitude imediata, de forma que o próprio Departamento de Justiça alicerçou o crime na 'reexportação não autorizada para a China' e no emprego de documentação fraudulenta.
Na atualização de 17 de outubro de 2023, o BIS detalhou ainda mais os dispositivos para coibir a evasão. Conforme a orientação do BIS, a nova regra manteve as exigências de licença aplicadas à China, Hong Kong e Macau previstas na regra de 2022, mas excluiu a "largura de banda de interconexão" como parâmetro de triagem de chips controlados e introduziu um novo indicador de "densidade de desempenho" junto aos parâmetros de rendimento anteriores. Para certas variantes de desempenho inferior, foi instituída a exceção de licença denominada "Computação Avançada Notificada (NAC)", mediante a qual, após notificação, o governo norte-americano delibera em até 25 dias se haverá necessidade de licença formal. Na prevenção a desvios, determinou-se a obrigatoriedade de licença para remessas com destino a qualquer lugar do mundo destinadas a empresas cuja sede ou controladora principal esteja sediada em Macau ou em regiões submetidas a embargo de armas dos EUA — leia-se a China —, impondo ainda requisitos de autorização para exportações a mais de 40 países avaliados como de alto risco de desvio para território chinês. O BIS esclarece que tal estrutura foi planejada para fechar as portas à obtenção de chips restritos via filiais estrangeiras ou revenda em terceiros países.
Visto que o período da denúncia contra Lui abrange 2023 e 2024, a regra complementar possui sobreposição cronológica direta. Contudo, o comunicado oficial do Departamento de Justiça não especifica quais cláusulas da referida complementação incidiram sobre as transações pontuais de Lui, nem em quanto os servidores investigados ultrapassaram os limites de densidade de desempenho. Embora se confirme que o redirecionamento dos parâmetros estabelecidos pelo BIS e a mecânica negocial apontada pela procuradoria compartilham a mesma diretriz de 'combate à evasão por terceiros países', não é viável definir, sem acesso direto aos autos originais da denúncia, os números técnicos exatos que ditaram a necessidade de licença em cada operação. Documentos públicos não trazem subsídios para vincular com exatidão um parâmetro específico aos servidores de Lui.
O mesmo pacote complementar de 2023 contemplou adições à Lista de Entidades (Entity List). O BIS incluiu 13 entidades na lista, entre as quais duas corporações chinesas envolvidas no desenvolvimento de semicondutores de computação avançada e suas subsidiárias, estendendo ainda as vedações sobre itens produzidos no exterior com tecnologia norte-americana. Na vertente sobre itens para a fabricação de semicondutores, as exigências de autorização foram alargadas para além de China e Macau, cobrindo outros 21 países sob embargo de armamentos dos EUA. Tratam-se de controles de natureza administrativa, independentes da designação individual ou da imputação penal atribuída a Lui. Como o comunicado do Departamento de Justiça tampouco relata a inclusão de Lui ou da Earthmade na Entity List, ambas as iniciativas se inserem apenas no endurecimento simultâneo do controle de exportações. Não se deve tomar como idênticas a denúncia penal e a inclusão administrativa na referida lista restritiva.
Alegação de 'servidores fictícios' restrita ao comunicado da Procuradoria do Distrito Central da Califórnia
O comunicado distribuído no mesmo dia pela Procuradoria do Distrito Central da Califórnia contém uma sentença não encontrada no texto oficial da assessoria do Departamento de Justiça. No release da Procuradoria, o procurador-geral adjunto Eisenberg declarou que a denúncia expõe "os esforços para dissimular a China como destino real da tecnologia restrita, inclusive mediante a apresentação de staged dummy servers (servidores fictícios preparados para inspeções) a fim de ludibriar os fiscais, além da montagem de esquemas complexos de transbordo". O informativo central da assessoria reportou o uso de documentos falsos, trânsito por terceiros países e baldeação de carga, mas omitiu a menção a 'servidores fictícios'. Como os dois textos cobrem o mesmo evento na mesma data apresentando divergência de teor, a tese dos servidores fictícios não configura fato atestado diretamente nos autos primários da denúncia, mas uma manifestação do procurador-geral adjunto Eisenberg incorporada ao comunicado da procuradoria local.
Observa-se igualmente discreta divergência quanto aos órgãos encarregados das apurações. A assessoria central do Departamento de Justiça informou que o inquérito ficou a cargo do Escritório de Fiscalização de Exportações do BIS/Departamento de Comércio, do DCIS e do FBI. Por sua vez, a Procuradoria do Distrito Central da Califórnia especificou a unidade do FBI como sendo a 'Divisão de Contrainteligência e Espionagem do FBI'. A respeito dos membros do Ministério Público à frente do processo, os dois informativos convergem: a ação penal é patrocinada pelos procuradores federais adjuntos Colin S. Scott e Joseph S. Guzman, do Distrito Central da Califórnia, em conjunto com o promotor Eli Roth, da Seção de Contrainteligência e Controle de Exportações da Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça; as medidas de perdimento cível e criminal dos bens arrestados são conduzidas pelo procurador federal adjunto Alexander Su, responsável pela área de confisco e recuperação de ativos. Fica assim suprida com a respectiva identificação nominal a referência feita anteriormente à atuação nos bens apreendidos.
Posicionamento da China e da defesa de Lui
Os comunicados do Departamento de Justiça não apresentam nenhuma manifestação das autoridades chinesas ou dos defensores constituídos por Lui. Os materiais de divulgação das instâncias acusatórias não costumam contemplar o contraditório da defesa, razão pela qual o oferecimento de denúncia não prejulga a culpabilidade do investigado.
Próximos desdobramentos
Há dissonância entre os dois informes oficiais quanto à data da primeira audiência judicial. O comunicado da assessoria do Departamento de Justiça declarou que Lui compareceria perante a Corte Distrital de Los Angeles para a audiência inicial de custódia e instrução preliminar (arraignment) na própria tarde da prisão, 1º de outubro; todavia, a nota da Procuradoria do Distrito Central da Califórnia marcou o primeiro comparecimento e o arraignment para a sexta-feira. Como 1º de outubro de 2026 foi uma quinta-feira, pelo registro da procuradoria local o procedimento ocorreria no dia seguinte, 2 de outubro. Não é possível confirmar somente à luz dos comunicados em qual data a apresentação de fato se realizou, permanecendo o calendário sem definição explícita. O inquérito foi conduzido em conjunto pelo Escritório de Fiscalização de Exportações do BIS, DCIS e FBI, cabendo o processo criminal à Procuradoria do Distrito Central da Califórnia e à Seção de Contrainteligência e Controle de Exportações da Divisão de Segurança Nacional. O próximo marco processual consiste na manifestação de Lui quanto à sua culpa ou inocência e na fixação do cronograma do julgamento.
Fontes
- Comunicado de imprensa da Assessoria de Imprensa do Departamento de Justiça dos EUA, 1º de outubro de 2026: https://www.justice.gov/opa/pr/california-man-arrested-smuggling-more-300-million-export-controlled-computer-servers-china
- Comunicado de imprensa da Procuradoria dos EUA no Distrito Central da Califórnia, 1º de outubro de 2026: https://www.justice.gov/usao-cdca/pr/san-gabriel-man-arrested-federal-charges-alleging-he-smuggled-china-more-300-million
- Comunicado de imprensa do Bureau de Indústria e Segurança (BIS) do Departamento de Comércio dos EUA, 7 de outubro de 2022 (Controles de exportação de semicondutores e computação avançada para a China): https://www.bis.gov/press-release/commerce-implements-new-export-controls-advanced-computing-semiconductor-manufacturing-items-peoples
- Página informativa sobre controle de exportação de computação avançada do Bureau de Indústria e Segurança (BIS) do Departamento de Comércio dos EUA (regras de 2022 e 2023): https://www.bis.gov/press-release/bis-updated-public-information-page-export-controls-imposed-advanced-computing-semiconductor
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